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Biblio 3W. Revista Bibliográfica de Geografía y Ciencias Sociales
Universidad de Barcelona [ISSN 1138-9796] 
Nº 208, 21 de febrero de 2000 

A DIMENSÃO ESPACIAL DOS ESPORTES. Quarto Congresso de História do Esporte na Europa (Florença, Itália, 2 a 5 de dezembro de 1999)

Gilmar Mascarenhas de Jesus


Diversos foram os exercícios de ficção e prospectiva realizados no passado, sobre como seria a vida humana no ano 2000. Muitas das maravilhas tecnológicas imaginadas, admita-se, não se concretizaram. Por outro lado, é notável que muitos aspectos da sociedade apresentaram desenvolvimento imprevisto. Poucos imaginaram, neste sentido, que a prática esportiva fosse adquirir a expressão, a ubiqüidade e a força atualmente verificadas. Os esportes, enquanto fenômeno econômico, social, cultural e político, alcançaram indubitavelmente grande magnitude nesta virada de século.

Ainda que se reconheça a existência de inúmeras formas pretéritas, os esportes modernos foram majoritariamente gestados, em suas linhas básicas, no decorrer do século XIX. Entretanto, no transcorrer do século XX a dinâmica social imprimiu mudanças e novas significações para a prática esportiva. Para compreender a natureza, os sentidos e o ritmo destas transformações vem sendo realizados vários debates e eventos científicos.

Para este fim, entre os dias 2 e 5 de dezembro de 1999 na bela cidade de Florença realizou-se com pleno êxito o "IV Congresso de História dos Esportes: História do esporte e cultura" , evento anualmente promovido desde 1996 pelo CESH (European Committee for the History of Sport). Este congresso foi realizado nas dependências do ISEF (Istituto Superiore di Educazione Fisica di Firenze), Viuzzo di Gattaia, 9, Florença. Os trabalhos apresentados encontram-se publicados nos anais em dois volumes.

Pretendemos, a princípio, apresentar o evento em linhas gerais: os eixos temáticos e as principais tendências vigentes. Num segundo momento, delimitaremos um conjunto de trabalhos cujo escopo aponta para possibilidades de uma análise geográfica dos esportes. O fazemos por reconhecer simultaneamente a existência de horizontes concretos e a inexistência de iniciativas no seio da comunidade acadêmica geográfica que, com raras exceções, ainda não despertou o interesse para o estudo dos esportes.

O Evento

O congresso reuniu 97 especialistas de mais de vinte países, sendo que 84 destes apresentaram trabalhos em sessões temáticas ou ministraram conferências. Segundo a procedência, o maior aporte quantitativo ficou por conta dos próprios afitriões (23 participantes), seguidos imediatamente pelos franceses (13 inscritos) e pelos britânicos e alemaes (em total de 9, cada). Tal distribuição reflete sua notória condição como tradicionais estudiosos da história dos esportes, principalmente dos seguintes centros de pesquisa: Université de Montpellier I (cinco representantes) e International Centre of History Sport and Culture (De Monfort University, Leicester, com quatro membros).

Ainda com destaque cabe mencionar dois países: a Dinamarca, que enviou 6 participantes, e Grécia, com cinco. Também tomaram parte pesquisadores provenientes da Áustria, Noruega, Suécia e Canadá (cada país com dois participantes) e, com um único enviado, Slovenia, Slovaquia, Espanha, Holanda, Bélgica, Suíça, Polônia, Chipre, República Tcheca, EUA e Brasil. Compareceram ainda pesquisadores de países como China e Turquia, que não figuram nesta relação por não ter efetivado sua inscrição.

No que concerne às áreas acadêmicas, prevaleceram amplamente profissionais formados em Educação Física e, secundariamente, historiadores. Em muito menor número compareceram sociólogos, antropólogos, lingüistas, comunicólogos entre outros, incluindo um geógrafo, autor desta resenha. A presença destes profissionais foi bem acolhida, como saudável demanda do debate multidisciplinar que exige o vasto universo dos fenômenos esportivos.

Para tentar abarcar a diversidade temática que os esportes sinalizam na atualidade, foram definidos pela Comissão Organizadora 12 eixos. O critério para definição destes não seguiu, aparentemente, uma única lógica, pois ao mesmo tempo em que se elegeu determinado período histórico (o Renascimento), omitiu-se os demais. Registre-se ademais que uma única modalidade esportiva foi considerada um eixo à parte, a despeito de todas as outras.

Os 12 eixos temáticos, posicionados em ordem decrescente quanto ao número de comunicações realizadas no âmbito de cada um deles encontram-se abaixo no quadro I. Registre-se que as dez conferências realizadas por pesquisadores convidados não foram alvo de classificação por eixo temático por parte da comissão organizadora, totalizando assim 71 contribuições acadêmicas durante o evento.

Quadro 1.
Eixos Temáticos no IV Congresso de História do Esporte: hierarquia segundo o volume de trabalhos apresentados.
 
EIXOS TEMÁTICOS
NÚMERO DE TRABALHOS
total (percentual)
Sociedade
10 (16.4%)
Literatura
8 (13.1%)
Feminismo
7 (11.4%)
Renascimento
6 (9.8%)
Futebol
6 (9.8%)
Regionalismo
5 (8.2%)
Identidade
4 (6.5%)
Ciencias do Esporte
4 (6.5%)
Política
3 (4.9%)
Nacionalismo
2 (3.3%)
Ginástica e Educaçao Física
1 (1.7%)
Gerais 
5 (8.2%)
TOTAL DE COMUNICAÇÕES
61 (100.0%)
CONFERÊNCIAS
10
TOTAL GERAL
71

A distribuição dos trabalhos segundo os eixos supracitados permite antever o conteúdo geral do evento e as principais tendências em voga neste campo de investigação. Inicialmente, podemos afirmar que o fato de um eixo denominado Sociedade ter atraído o maior número de trabalhos é revelador da preocupação ora vigente de melhor contextualizar o estudo da atividade esportiva, e de verificar nexos entre esporte e comportamento sócio-cultural. Neste eixo verificamos trabalhos voltados para o processo de globalização do esporte, bem como diversos outros dedicados a discutir questões culturais que envolvem a prática esportiva, de forma que o eixo em pauta poderia se chamar "Sociedade e Cultura". A supremacía deste eixo aliás expressa muito bem a preocupação dos estudiosos em atender ao subtítulo do evento, "história do esporte e cultura" .

O segundo eixo a abarcar o maior volume de comunicações foi, surpreendentemente para muitos, o de Literatura. Entretanto, devemos revelar que neste eixo foram agrupados todos os trabalhos que trataram de diferentes formas de expressão artística, seja a pintura, a música, a escultura ou a própria literatura. Ou ainda, trabalhos que tomaram como fontes documentais textos literários, o que não significa propriamente enfrentar interfaces entre literatura e esporte. Não obstante, também este eixo é revelador do grande número de investigações voltadas para as dimensões simbólicas e culturais da atividade esportiva. Como também reflete a busca e a legitimação de novas fontes documentais que, se não oferecem dados do mundo empírico, cumprem o importante papel de revelar diferentes formas de interpretação da realidade.

O Feminismo aparece em terceiro lugar e expõe o grande interesse em inserir no estudo da história do esporte a questão do gênero, já discutida em grande escala em outros campos de investigação. Cabe informar que, para além da pesquisa histórica, o estudo da mulher nos esportes já mereceu tres grandes eventos específicos, promovidos pelo grupo Women and Sport, havendo o próximo já previsto para se realizar em Helsinki, Finlandia, em junho do ano 2000, intitulado Women, Sport and Culture¨How to Change Sports Culture? Entretanto, ao menos no âmbito do evento aquí apresentado, as discussões não revelaram a esperada riqueza temática e metodológica. Muitos dos trabalhos dedicaram-se a expor, em diferentes contextos, (mas quase sempre sob a mesma ótica foucaultiana) um mesmo processo de opressão incutido na introdução da educação física e da ginástica compulsoria às mulheres, cujo objetivo era o de "disciplinar os corpos" e preparar a mulher para o exercício da maternidade.

O Renascimento e o Futebol aparecem em quarto lugar com seis comunicações cada um. Primeiramente, trataremos do Renascimento, cuja eleição como eixo temático (a antigüidade, o medievo, a era moderna, todos os demais possíveis períodos históricos foram omitidos) revela o "olhar italiano" , e em especial a cultura fiorentina, saudosos daquela época de fausto. Dos seis trabalhos em pauta, não por acaso, cinco pertencem a pesquisadores italianos. Ainda assim, o único de autoria " estrangeira" trata na verdade de cidades medievais e será comentado mais adiante, na segunda parte desta resenha.

O futebol, o mais popular esporte do planeta, the world´s game, le sport du siècle ou el deporte rey, conforme a língua em que é tratado, figura neste evento especialmente como eixo individual. Dentre mais de cem modalidades esportivas oficialmente existentes, o futebol foi neste evento o único a merecer distinção, e ainda assim justificar tal mérito ao atrair significativo número de trabalhos. Número que aliás poderia chegar a 9, caso a comissão organizadora considerasse três outros trabalhos que lidam diretamente com o tema, mas que foram inseridos em outros eixos (feminismo, ao tratar do futebol feminino; sociedade, quando se discute o lugar do futebol na vida suburbana; e por fim, um terceiro trabalho estranhamente classificado como "temas gerais", quando trata claramente dos clubes de futebol amador, sendo aliás de autoria de um membro do Football Research Unit, da Universidade de Liverpool). Neste eixo¨(considerando-se aqui os nove trabalhos em pauta), é muito difícil definir uma linha analítica predominante, dada a diversidade de enfoques apresentada. Não obstante, três comunicações lidaram com estratégias de difusão do futebol pelo território, e serão tratadas mais adiante, pois abrem claras conexões com o debate em geografia.

Cinco trabalhos foram classificados no eixo Regionalismo, que supostamente possui conotação explicitamente geográfica. Entretanto, a rigor, somente o trabalho de Mike Cronin (The revival of Aonach Tailteann - the "Celtic Olympics" - 1924-1932 and the attempt to invent a sporting festival for the Celtic Nation), envolve efetivamente a açao de forças regionalistas.

Para finalizar esta primeira parte, cabe reafirmar a saudável tendencia geral vigente, a de realizar um esforço por superar uma abordagem restritiva das práticas esportivas. Restritiva no sentido do enfoque tradicional entre profissionais de educação física, que apenas recentemente vêm incorporando uma análise mais globalizante e holística do esporte como fenômeno social multifacetado, polissêmico, rico em interações com outras instâncias da sociedade. Neste sentido, eixos clássicos como Ciencias do Esporte" (que lida com técnicas, treinamento esportivo, táticas de jogo, preparação do atleta, etc) e Ginástica e Educação Física", receberam juntos apenas cinco comunicações ao todo. E ainda assim, uma delas, (a de Daniela Ciulla, da qual trataremos mais tarde), parece escapar dos limites clássicos destes eixos ao lidar muito mais com espaços da prática esportivo-recreativa do que com ela em si mesma.

A Geografia nas entrelinhas: a espacialidade dos esportes.

Muitos dos trabalhos apresentados descortinam aspectos e dimensões da espacialidade dos esportes. Para simplificar nossa exposição, selecionamos os nove trabalhos que ao nosso ver melhor elucidam esta perspectiva. Este pequeno conjunto foi aqui dividido em dois grupos, a saber:

  1. os que revelam a capacidade da prática esportiva em produzir novas formas espaciais e alterar a paisagem e o uso do território;
  2. os que se ocupam do poder da configuração territorial, em diferentes escalas (a praça, o bairro, a cidade, a região, a formação socio-espacial etc), de condicionar o advento e a evolução/difusão da prática esportiva.
Cabe lembrar que a distinção supracitada não significa ignorar o fato de que a relação entre esporte e espaço geográfico envolve um jogo dialético de forças recíprocas. Apenas desejamos simplificar a exposição no sentido de melhor esclarecimento. Em síntese, devemos realçar o pressuposto de que não existe no movimento da sociedade uma estrutura mecanicista de causa e efeito lineares. Em outras palavras, a prática esportiva que modifica usos do território e produz novas formas na paisagem é sempre decorrente de condições locais previamente favoráveis à sua realização. E ao se instalar no lugar, a prática esportiva altera as condições reinantes e redefine a relação dialética entre o esporte e a o espaço geográfico.

As paisagens produzidas/alteradas pelos esportes

Em Past playgrounds: a plea for the archaeology of sport, Dennis Brailsford apresenta novas técnicas arqueológicas dedicadas ao reconhecimento de extintos locais de prática esportivo-recreativa. Chega a detectar, no medievo, o uso simultâneo de campos para pastagem e atividades "esportivas". Com o crescimento urbano-industrial dos séculos XVIII-XIX muitos destes locais desapareceram. Entretanto, muitos outros sobreviveram e resultaram em praças e parques, que perduram até nossos dias. Em Roma, um bom exemplo é a magnífica praça Navona, cujo formato deriva do antigo estádio de Domiciano (século 1). Suas arquibancadas para 33 mil pessoas hoje sustentam os edifícios que contornam a praça, ao servir de fundação. Em Londres, grandes espaços verdes como o Hyde Park resultam de áreas destinadas pela aristocracia do século XVIII à prática da caça e equitação. Em síntese, a paisagem urbana hodierna apresenta configuraçoes cuja morfolofogia se explica por usos pretéritos diversos, dentre eles o esportivo.

Daniela Ciulla, em I luoghi della pratica dell´esercízio físico in Catania greco-romana, nos remete àquela antiga cidade, uma das maiores do Império Romano, através de sua arqueologia dos lugares de prática esportiva e exercício físico. Baseando-se em fontes documentais escritas em latim no século IV (incluindo obras como o manual geográfico Expositio totius mundi et gentium, de autor desconhecido), a autora tentar resgatar a paisagem urbana repleta de termas, anfiteatros e outros equipamentos destinados ao culto do corpo. A organização interna da cidade de Catania na antigüidade não pode portanto ser entendida sem que se considere um privilegiado conjunto de práticas corporais e seus lugares no espaço urbano.

Em Histoire du sport e de la culture: le Foro Mussolini, Salvatore Finocchiaro procura demonstrar como a ideologia fascista se imprime na paisagem através do princípio da monumentalidade (o "signum visibilis"). O local, hoje chamado de Foro Itálico, que abrange o Estádio Olímpico de Roma, a Academia de Educação Física e grande conjunto de outras monumentais estruturas físicas, procura realçar a formação do Novo Homem no projeto fascista: o vigor atlético e a disciplina patriótica, nos quais o esporte deveria jogar um papel decisivo de formador do caráter individual. Aqueles ideais associados ao esporte como expressão do poder estatal ficaram definitivamente registrados na paisagem urbana de Roma. Um cenário de forte carga simbólica.

Ainda nesta linha de investigação sobre o aporte de regimes autoritários, Andre Gounot, em Culte de Stalin et architecture sportive: le project de la Spartakiade mondiale a Moscou en 1933, trata da URSS sob a ditadura de Stalin na década de 1930. Os esportes foram incluídos no projeto stalinista, e a "spartakiade" foi o maior evento esportivo realizado naquele país no período anterior à II Guerra Mundial. O autor procura evidenciar a expressão desta política na paisagem urbana, através da construção de vários estádios e monumentos (uma arquitetura específica que se impõe), mas também através da realização de grandes manifestações coletivas de apologia ao corpo atlético nas principais vias e praças de Moscou, espaços de exibição do poder soviético centralizado. Aqui os esportes nao apenas produzem paisagem material como também atribuem novas significaçoes aos lugares.

Os quatro trabalhos supra mencionados revelam, para diferentes contextos espaço-temporais, formas pelas quais a prática esportiva se apropria do território, gerando novos objetos e alterando a paisagem. Nos dias atuais, em que o esporte tornou-se uma poderosa indústria mundial, a capacidade de operar transformações na configuração territorial é certamente muito maior que aquela verificada no passado. Deveria o geógrafo também contribuir para o levantamento, entendimento e planejamento desta paisagem, que John Bale chama de sportscape.

O espaço geográfico como condicionante à prática esportiva

As cidades medievais, por sua própria fisionomia, adensada e fechada no recinto intramuros, ademais pela vigência do ideário cristão, não eram cenário propício à prática esportivo-recreativa. A cavalaria eventualmente era realizada como exibição do poder dos cavaleiros, guerreiros protetores da cidade. Entretanto, a partir do século XIII, as mudanças ocorridas nas cidades medievais começam a alterar este quadro de austeridade. O labor artesanal, em plena expansão, impõe nova realidade no mundo do trabalho, menos dependente da brutalidade e da força física empregadas no mundo rural. Diversões públicas relacionadas à tortura humana entram em declínio (as forcas são deslocadas para além dos muros no século XIV), sendo substituídas por festas nos espaços públicos animadas por músicos, dançarinos, palhaços etc, lazer mais adequado às necesidades do trabalhador artesanal, que passa o dia entre quatro paredes. O advento de relógios nas torres, a partir do século. XIV, definirá mais precisamente os limites entre o tempo de trabalho e o de lazer. Este conjunto de modificações na morfologia e no funcionamento das cidades medievais entre os séculos XIII e XVI, e sua relação com atividades recreativas, nos é fornecido por Vera Olivolá, em seu interessante trabalho Sports and games in medieval towns.

Sergio Giuntini, em seu belo trabalho "Origini del football a Milano: storia e modelli interpretativi, aponta limites nos modelos vigentes de interpretação do advento do futebol, tomando o caso da cidade de Milão. Recusando a historiografia futebolística baseada em mitos (que ele chama de "teoria metafísica"), tenta contextualizar o momento da introdução do futebol, verificando os diversos agentes sociais envolvidos e suas conexões com o mundo. Neste sentido, Giuntini visualiza nos fundadores no Milan A.C. industriais e jovens egressos de estudos na Inglaterra e Suíça. Também verifica o papel de padres protestantes e alemaes professores de ginástica em Milão como semeadores da cultura esportiva. E assim, um quadro de conexões internacionais, a modernidade milanesa e o meio industrial surgem como cenário adequado para o advento e êxito do futebol naquela cidade, e não em outras. Como diria Milton Santos, há um geographic flavour neste processo, que aquí se expressa em uma evidente seletividade espacial na introdução do futebol na Itália.

A Dinamarca sofreu profundas modificações entre 1950 e 1970, deixando de ser uma sociedade agrícola com indústrias para se tornar um país industrial com agricultura. O crescimento urbano acelerado foi acompanhado pelo desenvolvimento econômico e pela instalação do Estado de Bem Estar Social, que por sua vez investiu em equipamentos esportivos na cidade. Nos subúrbios de Copenhague dos anos 1970, onde a população proveniente do campo iniciava sua experiencia urbana, o ambiente das tradicionais festas campesinas foi substituído pelos eventos esportivos comunitários. Uma nova sociabilidade se criava, e os esportes foram beneficiados por um quadro de ausência de tradição cultural urbana, conforme nos sugere Morten Mortensen, em seu trabalho Sport as a creator of culture in the modern suburbs. O sucesso dos esportes na sociedade urbana dinamarquesa, e o caráter peculiar que adquiriram nos subúrbios, somente pode ser compreendido no bojo das supracitadas mudanças ocorridas no espaço geográfico nacional.

Preocupação semelhante se observa no trabalho Community, continuity and commitment: the importance of semi-profissional football in England, de autoria de Vic Duke, que busca explicações para a sobrevivência de grande número de pequenos clubes de futebol semiprofissional na Inglaterra. Sua pesquisa, que abrange 176 clubes, descobriu que quase metade deles tem mais de cem anos de existência, e que a maioria adota o nome da sua pequena cidade, ou do bairro. Atraem grande público, e revelam em síntese a coesão social destas localidades. Uma forma de organização do futebol própria de um velho país industrial onde as estruturas da rede urbana encontram-se há muito tempo consolidadas.

Poderíamos ainda citar a contribuição de Tony Mason (No football, please: you are women? The girl rise - and strange fall - of woman football in Britain: 1916-1923). Tentando decifrar as razões que levaram ao súbito desaparecimento de um florescente movimento de expansão do futebol feminino na Gra-Bretanha, Mason identifica como principal a redução do trabalho feminino nas fábricas (que eram então importantes impulsionadores do esporte). Mas também reconhece um aspecto que nos remete à geografia cultural e especificamente a uma reflexão sobre espaço e gênero: o futebol masculino (praticado sobretudo por operários) já encontrava-se totalmente consolidado, ocupando e dominando os espaços públicos que se ofereciam à prática esportiva. Ao se apossar destes espaços implantou neles uma atmosfera profundamente machista, que inibia a presença feminina.

Conclusão

O evento em pauta busca encontrar os condicionantes históricos para a prática esportiva. Entretanto, conforme tentamos argumentar, há também condicionantes geográficos. Oportunamente convidamos os geógrafos interessados em contribuir neste campo a comparecer ao próximo encontro (o V Congresso de História do Esporte na Europa), que terá lugar em Madrid, no INEF (Instituto Nacional de Educación Física), Universidade Politécnica, entre 15 e 19 de novembro de 2000.

Em síntese, o esporte é fenômeno social, e como tal se inscreve na dinâmica do espaço social. Seu advento, sua evolução, sua difusão, e mesmo a forma como é práticado (os significados culturais que abriga) têm íntima relação com a dimensão espacial da sociedade. A geografia pode dar importante contribuiçao a este universo de relaçoes que mobiliza fluxos de capital e de informaçao em escala mundial.
 

Bibliografia

BALE, John. Sports Geography. London: E & FN Spon, 1989.

CESH (European Committee for the History of Sport) e Comune de Firenze. Fourth Congress of History of Sport in Europe: History of Sport and Culture (Proceedings). ISEF (Istituto Superiore de Educazione Fisica de Firenze), nov/1999. Volume I, 255 paginas.

CESH (European Committee for the History of Sport) e Comune de Firenze. Fourth Congress of History of Sport in Europe: History of Sport and Culture (Proceedings). ISEF (Istituto Superiore de Educazione Fisica de Firenze), nov/1999. Volume II, 135 páginas.

JESUS, Gilmar M. À geografia dos esportes, uma introdução. Scripta Nova - Revista Electrónica de Geografía y Ciencias Sociales, volumen III, número 35, Universidade de Barcelona, 1 de marzo de 1999. <http://www.ub.es/geocrit/sn-35.htm>

JESUS, Gilmar M. Da cidade Colonial ao Espaço da Modernidade: os Esportes na vida urbana do Rio de Janeiro. Scripta Nova - Revista Electrónica de Geografía y Ciencias Sociales, volumen III, número 45, Universidade de Barcelona ,1 de agosto de 1999. <http://www.ub.es/geocrit/sn-45-7.htm>
 

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